Você é concha ou colher?

3 de setembro de 2019 admin

Há um ditado que diz que a gente colhe aquilo que planta, que recebe aquilo que doa.
Mas, como a vida não é exata, nem sempre as velhas fórmulas funcionam para todas as
horas nem para todas as ocasiões.
Relacionamentos são trocas, investimentos. Há pessoas que chegam e trazem muito,
contribuem, ensinam, promovem, nos torna infinitamente mais ricos de vida. No entanto
há àqueles que chegam, levam muito e deixam quase nada, por vezes nos empobrece, de
confiança, de esperança.
É recorrente na clínica os pacientes mencionarem a sensação de serem lesados. De
relacionar-se com pessoas que pedem muito, que exigem muito, que requerem muito
mas estão dispostos a retribuir pouco.
Dia desses um paciente mencionou um colega que sempre ligava quando estava em
apuros, quando precisava de um conselho, de um ouvido atento para desabafar. Mas,
nunca um dos telefonemas, referia-se a convites para uma oportunidade de diversão.
Uma paciente mencionou uma amiga que nas recorrentes crises com o namorado a
procurava para conversar, pedir conselhos, chorar no ombro. Mas, quando o pedido era
inverso, a história era outra.

Sem tempo, interesse, esses “pedintes de amor” não costumam ter a mesma disposição
para a retribuição. Impacientes tecem críticas e repreensões.
As trocas nos reabastecem como indivíduos. Somos carentes de reciprocidade e
necessitamos receber parte do que doamos.  São poucas as almas altruístas disponíveis
em nossa humanidade.
Há os que se acostumam apenas em receber, se colocam no centro. Consideram-se
merecedores. Portadores de pouca empatia. Doam-se na medida de uma colher, às vezes
de sopa, às vezes de chá, em outras, colherinhas de café. No entanto, seus limites são
elásticos quando o assunto é receber, seja carinho, seja cuidado, seja atenção. São
quase insaciáveis. Usam colheres para doar e distribuem conchas para receber. Podem
tornar-se pesados fardos para seus próximos. Mas têm pouca consciência disso.
Há os que usam conchas, doadores generosos, dispostos a acolherem, aconselharem,
abrirem mão de parte do seu conforto para ajudar. Raras vezes pedem ajuda, não
querem incomodar e quando o fazem distribuem colheres às vezes de sopa, às vezes de
chá e outras colherinhas de café. Os doadores muitas vezes também ultrapassam seus
limites. Doam-se além do que deveriam e sentem-se usados, desconsiderados.  E
costumam ter consciência disso.
A relação entre doar e receber nos remete a uma contabilidade afetiva delicada e de
difícil manejo.
Esse conflito não encerra disputas de certo ou errado, de vítima ou algoz. O que
precisamos é estarmos atentos aos nossos sentimentos e necessidades. E sermos
responsáveis por eles.
A culpa, o medo, o ressentimento são emoções conhecidas de quem vive nessa gangorra.
Os que doam sentem culpa de não fazê-lo. Se, extrapolam, sentem-se ressentidos consigo
mesmos e temem que o “pedinte afetivo” fique chateado e rompa o relacionamento.
Sentem-se maus.
Aos que recebem sempre, não é costumeira a culpa, mas também se ressentem, não
consigo mesmos, afinal eles são justos e bons, se pedem é porque precisam. Se
ressentem com o outro que deveria estar mais disponível, ter mais compaixão e
disponibilidade.
O que fazer então? Esperar consideração, compreensão, retribuição? Essas contas não
fecham, são de naturezas e medidas diferentes.
Cabe àquele que percebe mais, que enxerga melhor a si e ao outro, posicionar-se. Não
com a necessidade de compreensão e pedidos de mudança, afinal as infinitas conversas
travadas nessa direção sempre chegam ao mesmo resultado: nenhum.
As pessoas estão em níveis de desenvolvimento diferentes. Àquele que tem mais luz,
mais consciência deve tomar novas medidas, não para corrigir as medidas do outro,
porque algumas formas não se alteram, mas para alterar as próprias medidas.
Alguns portadores de colheres dificilmente mudam para concha. Cabe ao portador da
concha esvaziar um pouco o conteúdo do seu utensílio, resistir ao desejo do pedinte, não
deixando de doar, mas praticando doar menos.

Essa atitude não muda o outro, porque quem quer mudança é que deve mudar, mas a
revisão e o reposicionamento modificam a forma de lidar com a situação e isso equaciona
nãos as contas afetivas, nem as medidas de conchas ou colheres, mas modifica a medida
dos sentimentos. E isso já é o bastante.
Observe você e os seus relacionamentos. Os melhores são àqueles que usam à
medida ganha-ganha, que se usam mais adição que subtração. E cabe a você escolher as
medidas de doar e receber afeto, escolher a qualidade dos seus relacionamentos e até
em quem investe.
Afinal amor não se mede, mas sofrimento tem de todos os tamanhos. Quando for possível
escolher evite os excessos!
Maria Marta Ferreira


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