Para que serve mesmo ser o primeiro (a)?

15 de maio de 2012

 Possivelmente você também já tenha observado que nossa sociedade está ficando cada vez mais individualista. Pode ser que seja o reflexo de uma parcela da educação moderna, ou seria uma deseducação?

É fundamental o desenvolvimento da individualidade. Reconhecermo-nos como indivíduos, seres singulares, respeitar nossas idiossincrasias, sinalizar para as pessoas com quem convivemos quais são os limites das nossas fronteiras que precisam ser respeitadas, são saudáveis reflexos da individualidade.

Mas parece que estamos errando na medida. Algumas escolas, algumas famílias, alguns grupos, incentivam a individualidade confundindo-a com individualismo. O EU em detrimento do NÓS. Afinal, vagas imperdíveis de diretor ou presidente de algum lugar estão à espera de “algum primeiro”.

Crianças, jovens, incentivados precocemente a excessiva competitividade. Procura-se o melhor dos melhores e você precisa ter um diferencial. Já encontrou o seu?

Estamos mesmo vivendo tempos de excessos: de informação, de dietas, de consumo,de cirurgias plásticas, de exercícios físicos, de trabalho, de prazeres, de corrupção, de violência, de egoísmo. Preocupante!

Pessoas que furam fila descaradamente, que estacionam seu carro na transversal numa vaga que caberia três, enquanto o próximo, aquele outro ser humano que pode ser eu, você, fica rodando, rodando, deixando esvair o tempo enquanto procura uma possível vaga que pode estar há três quadras do seu destino.  Há aqueles que não ocupam três vagas, mas estacionam seu carro no meio de uma que caberia dois. São os espaçosos.

Receio que esteja se formando uma sociedade excessivamente narcísica. Devotada desordenadamente ao cultivo do eu. Se por um lado isso parece vantajoso, olhando de perto isso é desastroso e para a coletividade, extremamente nocivo.

A falta de empatia, de gentileza, de cortesia, de simpatia está se alastrando em escalas assustadoras. Exceto quando a pessoa está num contexto que lhe convêm ser gentil. Mas e a gentileza gratuita? Aquela que pode ser ofertada a “qualquer pessoa”. Aquela, que na verdade não é qualquer pessoa, é um ser humano que poderia ser você, seu filho, seu melhor amigo, seu pai, sua mãe.

Uma informação, mesmo desfavorável pode ser menos desconcertante, desagradável se for dada com um sorriso, ou acompanhada de um sinto muito. E isso custa muito pouco.

Todos nos relacionamos por interesse e não há absolutamente nada de errado com isso. Mas pode ser tão somente, o interesse genuíno de respeito ao próximo e não apenas o interesse em levar alguma vantagem ou usufruir de algum benefício. Há pessoas que confundem network com escada.

Existem algumas classes de profissionais que parecem ser menos afetadas por esse vírus do individualismo. Na classe dos artistas podemos ver uma movimentação interessante. Eles privilegiam e valorizam outros artistas, vão aos shows, a peças teatrais, curtem a estréia de um filme. Ao serem indagados sobre os colegas de profissão tecem elogios e valorizam o colega. Fazem parcerias, cantam juntos. Tomara que esse vírus também tenha alto grau de disseminação.

Há um desenho animado que assisto de vez em quando com meu filho que demonstra esse espírito de valorização e cooperação com o próximo: “Os mecanimais”.

Uma equipe de animais mecânicos em que cada um detêm uma habilidade e são escalados para missões de salvamento de alguém que está em dificuldades. O interessante é que no desenvolvimento do trabalho em equipe, quando cada um que está realizando sua tarefa, recebe comentários de admiração e valorização. “nossa como ela é rápida, ele é tão forte”!

Contrariamente há pessoas que tem o péssimo hábito de elogiar alguém desvalorizando outro. Uma demonstração explícita de baixa autoestima, que o individuo confunde com autovalorização e nem se dá conta. Como diz meu pequeno: um vexame!

No futebol é muito comum a supervalorização individual de atletas. É fato há profissionais muito talentosos, mas desconsiderar que há uma equipe trabalhando é contraproducente. O resultado disso são estrelas brilhando com pontas afiadas que impedem a aproximação de outras de importante grandeza.

O trabalho cooperativo tem o potencial de grandes realizações. Sabemos disso, mas estamos esquecendo de agir baseado nessa premissa. O ganha-ganha favorece a todos. É como distribuição de lucros nas empresas. Traduz-se em comprometimento que produz resultados e todos saem ganhando.

Temos observado grande preocupação com o planeta, com o verde, com a sustentabilidade. Corremos o riso de ter menos oxigênio. Mas, deveríamos nos preocupar também com a oxigenação das relações. Vivemos em sociedade e podemos ficar asfixiados se o espírito de solidariedade e cooperação se extinguirem ou atingirem níveis irrespiráveis.

Não estamos sozinhos. Como num grande tabuleiro aos nos movermos outras peças se movem e nós temos responsabilidade nisso. Vigiemos.

Precisamos estar atentos à medida das coisas. Autoafirmação, valorização pessoal, individualidade (não confundir com individualismo) são necessários e importantes na formação de uma autoestima saudável, mas estrelismo e excesso de egoísmo são absolutamente dispensáveis.

O exercício da autoconsciência, do auto-exame pode nos ajudar a ajustar a medida. Qual seu diferencial? Ser você, na sua melhor versão. Valorizar suas grandes e pequenas conquistas. Competir sim, mas consigo mesmo pra ser melhor hoje, do que foi ontem. E valorizar o próximo, afinal ninguém é o que é sozinho.

O extrato disso é FELICIDADE. Tem diferencial melhor? Afinal nossas ações são como bolas jogadas na parede, voltam com a mesma intensidade com que foram lançadas.

Ser o primeiro ou a primeira de alguma coisa só tem valor se tivermos um bom número de parceiros. Afinal de que vale avançar sozinho se um dos grandes prazeres da vida é compartilhar nossas vitórias e conquistas.

Quem se descuida disso pode até chegar primeiro, mas corre também o risco de ter que comemorar sozinho.

 

Maria Marta Ferreira

CRP 08/07401


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