3 lições sensivelmente imperdíveis sobre O Gambito da Rainha 1

3 lições sensivelmente imperdíveis sobre O Gambito da Rainha

7 de dezembro de 2020

Não sei o que os meus amigos Marden Machado e Luiz Gustavo Vilela, críticos de cinema diriam sobre a mini série o Gambito da Rainha, exibida no Netflix. Além de sublinhar o olhar, a elegância e charme absurdamente incríveis da atriz Anya Taylor-Joy e também nada mencionar sobre a crítica a uma certa romantização do vício, quero me deter em 3 pontos que considero fundamentais, sob a perspectiva comportamental:

1 – A força da influência das mães, biológicas ou adotivas.
2 – A indispensável sororidade, a amizade entre mulheres.

3 – A presença de homens feministas na vida de uma mulher, mesmo que eles não saibam, lê-se, que sabem reconhecer a grandeza do talento e competência de uma mulher e apoiá-la.

Mãe de Beth - Gambito da Rainha3 lições sensivelmente imperdíveis sobre O Gambito da Rainha 2

 

Ponto 1 – Apesar de ficar evidente questões problemáticas quanto a criação de Beth Harmon pela mãe consanguínea, Alice, evidente também ficou o fato daquela mulher transmitir à filha primariamente o senso de valor próprio. Quando borda seu nome a dispor no vestido para que Beth não esqueça quem é, nas brincadeiras, amorosidade e presença, marca na filha a boa semente de uma autoestima saudável. Quando mais tarde Beth encontra Alma Wheatley, sua mãe adotiva, outro processo se inicia, a relação delas, na fase da adolescência da filha, a conexão no partilhamento dos problemas na vida, mesmo mediante a complexidade da personalidade de Alma, sensível, delicada, mas presente na vida de Beth.

Desperta a beleza extraordinária da relação de cumplicidade e apoio mútuo entre mãe e filha. Fundamental, essencial para a força, a coragem e as lutas de uma mulher jovem como Beth. Ambas se fortaleciam na presença e no amor que nutriam uma pela outra. Se receberam genuinamente na força que firmavam juntas. A cena em que Alma pede um percentual de 10% sobre os ganhos da filha, ela em reconhecimento, por saber que sem o apoio da mãe não estaria onde estava, oferece mais que o pedido, entrelaçam os braços e caminham confiantes juntas, lado a lado.

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Ponto 2 – Antes de Alma, a futura mãe adotiva, Beth teve a presença de outra jovem mulher, forte, também corajosa e inteligente: Jolene que também vivia no orfanato. Mais velha, acolheu Beth e a protegeu. Nascia uma bela amizade. Apenas para citar o contexto racista, Jolene, menina negra, sabia que tinha poucas chances de adoção e quando Beth foi adotada primeiro, não se surpreendeu ou se ressentiu, vibrou pela amiga, apesar da perda no convívio. E foi Jolene que reapareceu quando a Beth precisava ser salva de si mesma. Sim são assim as amizades de verdade, nos lembram de quem somos, só com sua presença, com o amor, o interesse. Como quem chega, para recarregar nossa bateria, com dose extra de energia e recordação de que material somos feitas. Pura sororidade.

 

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Ponto 3 – Os homens campeões que estiveram na vida de Beth, começando por Mr. Shaibel, o zelador do orfanato quem a introduziu no mundo do xadrez. Um mundo em 64 quadrados que Beth aprenderia a controlar, pelo menos pretendia e se esforçava obsessivamente por isso. Na trajetória de vitórias, superou diversos jogadores homens. Por ser uma mulher no universo masculino do xadrez, destacou-se na mídia, e não se enganara de que o fato de ser mulher causava espanto maior do que deveria. Eis a forca do machismo. Forte naquela época, nos idos de 1950 e forte ainda hoje. O machismo só será superado se os homens o compreenderem e participarem da mudança, da mesma forma que o racismo só findará se os brancos entenderem a sua parte no processo. Assim é.

Primeiro Harry Beltik, depois Benny Watts, ambos se interessaram e agiram em favor de Beth no seu preparo para as competições mais importantes. Relevante sublinhar esses detalhes, não porque Beth não teria conseguido sem eles, provavelmente sim, mas por quê não com eles?! É preciso reconhecer que a grandeza do outro não precisa ferir a própria e podemos ser ainda maiores, quando entendemos isso, independente de quem está do outro lado, se tem a ver com gênero, com raça, seja o que for.

A cooperação sempre será mais profícua que a competição. Os maiores, só são maiores, porque sabem disso. Juntam-se aos fortes! Haveriam ainda muitos pontos a comentar sobre referências comportamentais dessa série muito interessante. Mas encerro por aqui, desejando que o seu olhar transcenda a distração do entretenimento e encontre outras lições inspiradoras.

Obrigada por ter vindo comigo até aqui, e acompanhem mais novidades no meu Instagram, Facebook e LinkedIn.

Um beijo.
Maria Marta Ferreira

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