O AMOR E O ESPELHO – POR LUCIANA CHEMIM

25 de setembro de 2013

Ainda não inventaram nada melhor do que amar e ser amado, pelo menos não que eu saiba, especialmente se essas duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Diga-se, esse requisito deveria ser obrigatório. Porque amor platônico pode até ser lindo num romance dramatizado por Shakespeare, mas na vida real, amor bom mesmo é o correspondido.

Isso não significa, infelizmente, que o amor seja isento de dor. Afinal, quem nunca sofreu um bocadinho por amor que atire a primeira pedra. Ao primeiro sinal de que o ser amado está um pouco distante, nosso estômago reboliça e nosso alarme interior dispara: “perigo a vista”. Pode até ser que seja mesmo, o fim do amor. Mas, também pode ser apenas aquele período de clausura, que a maioria de nós necessita. Claro, se durar mais do que dois dias confie no radar. Isso porque o amor carrega consigo, entre tantas outras coisas, a vontade de estar junto, de comprometer-se, de enroscar os pés no inverno, as mãos no cinema, os braços nos momentos de tristeza e o corpo todo entre as quatro paredes.

Então, esse negócio de precisar de “tempo” não existe. Não no amor. O amor não escolhe o dia. Ama-se de segunda a segunda. O amor não tira férias. E, nada de se iludir, tem que ter investimento. É aquela velha história da plantinha. Rega-se todo dia um pouquinho. E a água do amor, sabe-se bem, ou deveríamos saber, é o diálogo, o passeio improvisado, a viagem planejada, os sonhos construídos e realizados a dois, as risadas das trapalhadas do outro, a honestidade afetiva, as conversas que perduram até o raiar do dia, o bilhetinho no para brisa do carro, o prato preferido na segunda-feira, o jantar a luz de velas pra comemorar a promoção, as flores deixadas no travesseiro, o poema colado no espelho.

É o abrir mão de algo pelo outro, é ler nos olhos o que as palavras calam, é saber que um “não foi nada” nem sempre significa que está tudo bem, é pedir desculpas, se colocar no lugar do outro, encerrar uma briga com um gostoso abraço, é vontade de virar um só. Pode soar clichê, démodé ou piegas demais. Amor é dado a essas coisas que alguns chamam tolice, mas que fazem toda diferença para aqueles que estão predispostos a “vivê-lo em cada vão momento”. E ninguém disse que seria fácil. Não é a toa que tá assim de gente fazendo novena, promessa e simpatia para encontrar alguém para amar e ser amado. Coitado de Santo Antônio que já teve sua imagem amarrada de ponta cabeça, enfiada num copo d’água, amordaçada e esmigalhada. Se você está rindo, é porque sabe bem do que estou falando. Há quem garanta que funciona.

O que eu sei mesmo é que, em matéria de amor, é preciso reciprocidade, porque bem disse o poeta chileno Pablo Neruda: “Se sou amado, quanto mais amado, mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também. Pois amor é feito espelho: tem que ter reflexo.”


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