Não desperdice vida com autoestima falsificada. Só uma vida original vale realmente a pena! 1

Não desperdice vida com autoestima falsificada. Só uma vida original vale realmente a pena!

                   3 de setembro de 2019

AUTOESTIMA SAUDÁVEL não é egoísmo, não é soberba, não é egocentrismo, não exibicionismo, não é vaidade, nem narcisismo. É outra coisa que vale a muito a pena desenvolver! Como profissional do comportamento, confesso por vezes, ficar apreensiva com o rumo da compreensão que o “amor próprio” tem tomado. Em tempos de deformação da informação, causada especialmente pela superficialidade e a pressa em conceituar e demonstrar que se sabe, tenho assistido a situações complexas, tristes e preocupantes. Mais que consumir uma informação errada, ingerir um entendimento distorcido pode ser fonte de problemas que se refletirão no comportamento. O excesso de “eu me amo” por vezes tem o mesmo efeito de um analgésico. Retira a dor, mas não cura a fonte dela.

A intolerância a frustração, tem levado muitos a ouvirem só aquilo que gostam e que reforça aquilo que apreciam, como se toda a vida tivesse um lado só. Não tem. Somos matéria, energia, o positivo e o negativo nos compõe. Uma pessoa com autoestima saudável, sabe de si o suficiente, no que tem de melhor e empenha-se por iluminar essa face, mas também reconhece e lida com as próprias sombras, defeitos e limitações. O que ajuda e muito na empatia a vulnerabilidade alheia.

A autoconsciência é um pilar fundamental da autoestima. A capacidade de autoperceber-se, literalmente de se enxergar é indispensável nessa disciplina da vida. Se essa habilidade emocional estiver enfraquecida, a pessoa pode perder o bom senso e se expor a situações até constrangedoras sem que perceba. Um ego idealizado, reforçado por aplausos indiscriminados tem poder de distorcer a percepção fazendo com que algumas pessoas percam a importância da medida do eu. Muitas vezes percebidas só tardiamente ou o que é pior perpetradas indefinidamente. De alguma forma isso é prejudicial a vida psíquica. Sim, temos liberdade, podemos ser todo o nosso potencial, o que é diferente de ser tudo o que se quer, outro engodo amplamente difundido. Na outra face da liberdade está a responsabilidade. Inclusive com o outro. Essa história se que o outro é que de “F”; não tem nada a ver com autoestima, tem a ver com desrespeito, egocentrismo. Valorizar a voz do próximo, não invalida a nossa.

Nesses tempos em que se tem opinião sobre tudo, é uma “gritaria” só. Cada um querendo ter a palavra final, a posição mais importante. Há uma multidão se espremendo em cima dos palcos da vida, enquanto poucos na platéia observam apenas a si mesmos. Uma pessoa com autoestima saudável se importa consigo mesma, respeita suas opiniões, valoriza as próprias atitudes, mas é dotada de um senso imprescindível de cooperação e benevolência em relação ao outro. A máxima “amai ao próximo como a ti mesmo”, expressa bem essa equação. Nem mais, nem menos, o critério é de igualdade ou equidade, conservando o respeito as idiossincrasias de cada pessoa da relação de poucas ou muitas pessoas. Se há uma necessidade de estar sempre certo, de opinar sempre, de defender sua ideia em supremacia a do outro, atenção porque isso é necessidade excessiva de autoafirmação.

Por muitas vezes me perguntam se há autoestima alta demais, e se isso é bom. Pessoas soberbas, arrogantes, orgulhosas demais, idealizadas ao extremo, percebendo ou não, demonstram autoestima baixa, ou pseudoautoestima. Que nos instrua as referências do corpo. Triglicerídeos altos, cortisol, pressão arterial, colesterol, altos demais indicam problemas de saúde. No corpo emocional não é diferente. Uma pessoa com autoestima saudável sente um senso de valor próprio e alegria em ser quem é. Aceita sua história, empenha-se por desenvolver-se, em melhorar, mas jamais desqualifica ou inferioriza o outro, tampouco precisa provar a si e ao outro que está certa todas às vezes. Ao contrário, ao errar não se desmorona, não que goste, mas logo se perdoa e reintegra-se, afinal tem consciência das próprias limitações e humanidade, por isso tem maior competência também em perdoar outras pessoas.

Na relação com o outro, encoraja-o, destaca suas qualidades, alegra-se pelas conquistas alheias, admira e elogia sem bajular. Na pessoa com boa autoestima, modéstia e humildade moderadas são preservadas. A pessoa com autoestima saudável, regula os holofotes. Acolhe os elogios, porque aprecia o reconhecimento, importante para todos, mas não se ensoberbece, se deslumbra ou se engrandece. Um sutil constrangimento, ajuda a moderar os elogios. Redireciona o foco e aproveita para elogiar o próximo numa devolutiva simultânea de generosidade e cortesia. Um bom medidor para saber se uma pessoa tem boa autoestima são os relacionamentos de amizade genuína que ela tem e mantêm. Isso não tem nada a ver com número de likes, seguidores ou quantas postagens se faz por dia demonstrando o quanto é feliz e grata. Isso tem a ver com trocas genuínas, cooperação, apoio mútuo, simplicidade, incentivo e parcerias desfrutadas em relações saudáveis, habitualmente longe dos holofotes.

O narcisismo de saudável não tem nada. É um transtorno de personalidade, em que a pessoa sente-se e age com sentimento íntimo, não apenas de valor próprio, mas de superioridade. Considera-se mais merecedora, mais importante, mais isso, mais aquilo, mais e mais que os outros. Tem baixa tolerância a frustração, aprecia a bajulação e tem baixíssima empatia.

É oportuno lembrar aqui o que ocorria na Roma antiga, quando os grandes generais ao retornarem vitoriosos de suas batalhas eram recebidos com grande honraria, mas para alinhar seu sentimento de valor e grandeza, um escravo o acompanhava na biga e a cada 500 metros recitava: “lembra-te que és mortal”. Diferentemente de um desmancha prazer, esse “grilho falante romano” pode ser associado a importância de um bom conselheiro. Aquele amigo verdadeiro que tem coragem e lealdade suficientes para nos dizer “amigo(a) menos, bem menos”! Manter a capacidade de ouvir o outro, refletir sobre o próprio comportamento, polir as lentes da realidade pode ser um bom vetor para não sermos engolidos pelo excesso de vaidade. Os tempos atuais têm sido infecciosos nisso devido o culto ao superficial.

Um pouco de autêntica modéstia ainda é uma virtude. Porque excessos apesar de glorificados em alguns contextos, continua sendo sinal de desequilíbrio. O excesso nos conduz a banalização, a dessensibilização, nos acostumamos e já não ouvimos mais o tic-tac do relógio. Silêncios por vezes nocivos. Um livro secular nos alerta sobre a discrição e privacidade. “E, quando orardes, não sejais como os que apreciam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem admirados pelos outros”. Temperança ainda está em voga. Não há nenhum mal almejarmos admiração, que genuinamente é uma forma de amor.

Somos seres de interação social, nos importamos sim com a opinião do outro, mas não esqueçamos que aquilo que o outro pensa sobre nós, não necessariamente nos define. Desejamos concordância e validação mas não precisa ser de todos e nem sempre, desejamos o respeito, o reconhecimento, a valorização, mas jamais teremos unanimidade. Tudo bem, é desnecessária. E é nesse sentido que o amor próprio nos proteje, porque nos lembra do valor que temos e do que recebemos de quem realmente importa e se importa. Serve para lembrar que mesmo não estando no centro do mundo, não sendo importante para todo mundo, não acertando todas as vezes, não estando feliz todos os dias, ainda assim valemos a pena. Mesmo assim não precisamos afirmar isso o tempo todo.

Viver de maneira fiel a isso já é suficiente. A comparação, tão nociva a autoestima ganha força exponencial nas redes sociais e definem padrões inatingíveis, considerando aquilo que se afasta deles, insuficientes, inferiores. A competitividade supera a cooperação e transforma as conexões em ringues de vaidade. Isso pode ser cansativo, exaustivo e pernicioso se não soubermos nossa maneira de encontrar a paz e a felicidade próprias. Não há uma receita, mas a autoestima tem medida. Original, autêntica, exclusiva, incomparável, como uma impressão digital. É exata. Não tem sobra, nem falta. Não é alta, é auto. Não é preço, nem quantidade, é qualidade. Se trata de valor. Na exata medida do seu valor e do seu amor por você e por seu próximo. E por fim, “lembra-te que és mortal”. Não desperdice vida com autoestima falsificada.

Só uma vida original vale realmente a pena!


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