Perséfone - Fabiana Karla

NÃO BASTA SER GORDO, TEM QUE DAR AUDIÊNCIA!

24 de outubro de 2013

“Não bastassem os apelidos nada carinhosos que os gordos recebem como: rolha de poço, baleia, saco de banhas, agora também fomos comparados às lixeiras”.

De acordo com a psicóloga do reality “Além do Peso”, exibido pela TV Record (onde oito participantes entre mulheres e homens sofrem de obesidade mórbida e encararão uma maratona de emagrecimento por três meses), gordos são como lixeiras que, diferente dos magros, comem sem se importarem se a comida vai fazer bem ou não. Me arrisco a dizer que, ao proferir tal comparação, a cara da dita psicóloga era de nojo.

Ouvir piadinhas e frases prontas de quem não respeita o outro pelas suas formas físicas me deixa indignada, mas essa comparação absurda feita por uma profissional que deve auxiliar seus pacientes a encontrar o equilíbrio com eles mesmos e em suas relações pessoais e sociais me deixou indignada, constrangida e com muita vontade de colocá-la em um divã e dizer-lhe umas boas verdades a respeito de gordos e de como devemos respeitar as pessoas. E claro, rasgar o seu diploma.

Ao mesmo tempo, no horário nobre da Rede Globo, a personagem Perséfone, interpretada pela atriz Fabiana Karla, da novela “Amor à Vida” sofre as maiores humilhações que uma mulher pode sofrer. Porém, sendo gorda, a personagem oferece subsídios mais do que necessários para que o autor alimente os capítulos com preconceitos em relação ao físico e virgindade da enfermeira que luta desesperadamente para arrumar um homem que vá lhe fazer o grande favor de levá-la para a cama. Favor? Sim, o desenrolar da história parece fazer o público acreditar que quem transa com uma gorda está prestando um serviço, um favor, uma caridade, quem sabe?!

Mas nessa trama toda não sei o que é pior: a personagem gorda que tem dó de si mesma, que se humilha, rasteja e aceita ser objeto de chacota sem um pingo de amor-próprio, ou seus supostos amigos que, com suas piadinhas de péssimo gosto, não param de afundar cada vez mais sua autoestima. Ou então, de outro lado, os oito participantes do reality que estão emagrecendo, mas que, desde o princípio, lá na apresentação do perfil de cada um, foram retratados como coitados, deprimidos, tristes, no fundo do poço (e comparados a lixeiras), cujas vidas são um completo desastre causado tão e somente pela obesidade. O programa continua fazendo o emagrecimento dos participantes com acompanhamento médico e personal, mas vem ganhando um pesado ar sensacionalista que tem gerado calorosas críticas nas redes sociais por parte dos internautas, principalmente gordos, que gostariam de ver a realidade retratada sem tanta dramatização. Afinal, gordo também tem seus momentos de felicidade como qualquer magro.

Que realidade é essa?

É a deturpação total da imagem do gordo na sociedade. Retratam a realidade? Talvez sim. Talvez não. Gordos são vítimas a todo instante de preconceito, mas a generalização é patética e beira o ridículo. Sempre que posso me cito como exemplo porque confere veracidade, afinal, sou gorda e, se não passei por todo e qualquer tipo de preconceito, com certeza já passei por inúmeros. No caso de Perséfone, talvez por eu nunca me colocar na posição de vítima, nunca tenha notado os olhares enviesados de reprovação por eu ser gorda.

O fato é que enquanto as redes sociais pipocam de repúdio contra as humilhações sofridas pelas personagens, fico tentando me achar nas situações em que ela vive. Óbvio que sofri mais com o descaso do ex-marido em relação ao meu corpo quando, em nossas discussões, ele queria me humilhar, mas isso é uma questão que ocorria entre quatro paredes e não situações expostas como acontece com Perséfone que sofre de humilhações sociais constantes inclusive dos amigos. E não posso acreditar que amigos de verdade tripudiem amigos porque são gordos. Não me lembro mesmo dos meus terem feito isso, de terem esculhambado comigo. Não, não mesmo.

E assim como eu, antes de redigir esse texto, falei com outras mulheres e percebi que elas também não. Então me atentei para a minha idade, mais ou menos a mesma dessas amigas que não sofreram o tal do bullying, e me ocorreu que, desculpe minhas amigas e leitoras mais jovens, mas será que a minha geração era mais amiga, mais consciente, mais amorosa, mais legal, mais leal e ligada nos sentimentos dos outros? Será que essa necessidade de sobressair-se tem feito nossos jovens cada vez mais cruéis? Que tipo de amizade existe nos dias de tanta cobranças pelo ter e pelo ser a mais magra, a mais bonita, a mais rica, a mais descolada, a mais viajada, a que tem mais seguidores nas redes sociais e por aí vai? É um caso a se pensar.

Por outro lado, existe uma legião de mulheres gordas vítimas de si mesmas que se acham a ‘Rainha do Coitadismo’, que agem, pensam e se comportam exatamente ou até pior que a virgem gorda da novela escrita pelo senhor Walcyr Carrasco. E dá-lhe chororô daqui e dali. A gordura corporal da moça é um prato cheio para alimentar o preconceito na vida real e isso tem sido feito de forma tão contundente que até alguns magros vêm se sentindo incomodados com o exagero. Se na novela a personagem é constantemente humilhada e o preconceito alimentado descaradamente, na vida real ele pode aumentar, sim, senhor. Afinal, o povo adora a ficção na realidade. Ou seria a realidade na ficção? Não importa, desde que alimente esse lado de diminuir o outro para se sentir melhor. E provavelmente humilhar gordos deve ser uma coisa bacana de se fazer. Tem gente que nem é bonito, aliás, é muito feio, mas se acha superior ao gordo só porque é magro. Entendeu?

Mas enquanto as novelas e os reality shows estão aí dizendo que gordos são horríveis, feios, preguiçosos e não conseguem arrumar namorados, é bom a gente continuar a dizer que da sua saúde e do seu corpo cuida você. Que ninguém, além de você, pode proibir ou excluir-se dentro da sua própria vida. Só você pode determinar os seus limites e construir as pontes necessárias para as passagens ao seu sucesso.

Portanto, não dê muita atenção a nada que possa te desviar dos caminhos que te levem à realização de seus sonhos e objetivos. Porque, na verdade, eles falam, ditam regras, querem fazer você acreditar que, se não fizer como eles determinam, estará fadada à eterna infelicidade. O que eles jamais vão querer que você saiba é que, para eles, você é apenas parte dos 51% da população brasileira que tem excesso de peso e que vai querer saber o final da novela e se os participantes do reality emagreceram. Sim, para eles você não passa de um gordo que dá audiência. Porque eles parecem esquecer que você é muito maior, melhor e mais valioso do que qualquer número que queiram te dar.

Por KEKA DEMÉTRIO

Disponível em: <http://estilo.br.msn.com/tempodemulher/colunistas/n%C3%A3o-basta-ser-gordo-tem-que-dar-audi%C3%AAncia>

Acesso em: 24 Out. 2013, 17:24:14.


Matérias Similares


×