Minha vida, minhas regras! 1

Minha vida, minhas regras!

                   18 de fevereiro de 2020

Coração de Cavaleiro [2001] é um filme protagonizado pelo saudoso Heath Ledger, uma adaptação de um conto da obra “Os Contos da Cantuária”, importante literatura inglesa medieval. É uma história carregada de coragem, honra, amizade, e revela uma frase mais ou menos assim, dita pelo oponente ao protagonista: “Você foi medido, pesado e considerado insuficiente”.

Essa frase me parece na medida para exemplificar uma postura exacerbada e recorrente, bem popular nos dias de hoje, dita de outras formas, mas que tem um peso semelhante. Ouvimos o tempo todo que vivemos na era da informação, e de fato nunca tivemos tanta facilidade em acessar conteúdos de todas as espécies e isso como tudo carrega um bem e um mal. As redes sociais nos dão autonomia, agilidade, possibilidades de expor nossa voz para expressar o que pensamos, sentimos, acreditamos. 

Um dos efeitos colaterais no entanto é a associação a conceitos e regras pouco flexíveis sobre quaisquer assuntos e a partir disso, discursos inflamados e posturas rígidas. A temperança tornou-se artigo raro. Os moderados são medidos, pesados e considerados mornos, fracos, sem opinião, talvez errados e claro, insuficientes. 

Esse poder que as posições, partidos de todas as espécies tomaram para si, somados a um cenário social com solo raso, valores distorcidos e ausências de princípios importantes como a empatia, gentileza, respeito, compaixão, amor ao próximo, tem tornado o espaço virtual que se estende ao real e vice-versa, um ambiente bastante hostil. Felizmente, também fértil e solidário à disseminação de boas ideias e atitudes do bem. 

A individualidade, devido a pressa que produz leituras superficiais e naturalmente julgamentos precipitados, dão forma a uma espécie perigosa de individualismo, egoísmo presunçoso. Conceitos importantes como a autoestima tomam formas distorcidas, unidos a um egocentrismo próprio da imaturidade, ganham ares de verdade, e geram uma espécie de “idealismo fragmentado”. 

– Há um ideal para a maternidade e paternidade;

– Há um ideal para cuidar do corpo (beleza, saúde, alimentação);

– Há um ideal para a profissão;

– Há um ideal para a espiritualidade;

– Há um ideal para os relacionamentos amorosos;

– Há um ideal para TUDO!

Resumido em algumas regras que desconsideram cláusulas gerais da vida. Um único e certo ideal para cada coisa, surge como verdade. Sob tal crivo somos medidos, pesados e considerados insuficientes, muitas vezes.

Algumas exceções são elevadas ao patamar de exemplo que deve ser seguido, esse é o termo atual usado com orgulho (seguidores). Quem ousar não conseguir aquele padrão de alimentação, de corpo, de carreira, etc. e tal, é pesado, medido e considerado insuficiente. Um ser com falta de força de vontade, falta de determinação, falta de empenho, em resumo incompetente. Indigno de colher os resultados fabulosos que tais ideias propõem e que “todos” estão colhendo, menos você. Isso parece terrível!

Tenho visto e escutado pessoas competentes, dedicadas a fazer o melhor possível, ou pelo menos quase, com relevantes conquistas em diferentes áreas da vida, se considerarem insuficientes. Uma espécie de “bem-sucedidos fracassados”, porque julgam suas conquistas insuficientes, baseadas em crivos inconsistentes.

As réguas a postos em cada canto de uma rede social e outras mídias com manchetes extraordinárias (sete dicas para ter sucesso e descobrir o trabalho da sua vida, o amor da sua vida, etc e tal), atestam quem fracassou, quem não se esforçou o suficiente ou percorreu o caminho errado. Aquele diferente do proposto pelas ditaduras de tendências, que a partir do crivo exclusivamente pessoal, faz a culpa brotar com força e persistência em quem está do outro lado, e o sentimento de frustração e tristeza em vez de gratidão tomam grandes proporções. Resta então o saldo da insuficiência e o desenvolvimento de uma insatisfação crônica que interfere na saúde do corpo e da mente, fragilizando o sentimento de valor e competência próprios.

A pergunta é: quem julga, quem mede, quem ousa considerar os esforços alheios insuficientes? Quem calça os seus sapatos? Quem pode medir o contexto das suas histórias? O que te faz permitir se submeter a tal julgamento, muitas vezes o seu próprio, baseado em ideias de outros? 

Muitos ainda se assustam quando descobrem que há deformações em imagens e mentiras em muitos discursos. E o que é pior, há muita gente com as mãos cheias de réguas e pesos para medir os outros que tem os próprios olhos vendados, que não se enxergam, olham apenas para suas virtudes e hipervalorizando a si mesmos. Estão presos nas bolhas tecnológicas e nos próprios egos inflados. 

Caso tenha passado em sua cabeça que essa condição é boa e saudável. Não é! A autoestima saudável não eleva ninguém a patamares de deuses, nem quaisquer pessoas a níveis de inferioridade. Pelo olhar de uma autoestima saudável ninguém é visto aquém, nem além do que se é.

Mais senso analítico em vez de crítico, ajudaria muito. Mais respeito as impotências e limitações humanas, mais consideração a humanidade que nos compõe faria bem a todos. Há quem tema tornar-se medíocre, há quem tenha medo de cair na vadiagem, de perder-se.  Há pouca probabilidade que pessoas realmente esforçadas e dedicadas venham a tornar-se displicentes. Respeitar seus limites e aliviar suas cargas não significa fugir da disciplina, desrespeitar regras importantes para o êxito, tampouco deixar de cumprir com seus deveres.   

Há fortes pressões dos ideais perfeccionistas impostos a cada uma de nossas funções cotidianas, que a transgressão delas é considerada um erro imperdoável. Deixar-se em paz pode ser a saída. Saber de que material você é feito é uma justa medida para estar em paz consigo mesmo, desenvolver doses de empatia e respeito próprios e produzir uma medida de autocompaixão (que não é autocondescendência) suficientes é fundamental para a tranquilidade de habitar a própria pele, e comandar sua história com sucesso.

A polaridade faz parte do que somos, o caminho variável do centro tão desprezado e considerado insuficiente é sim um espaço onde podemos transitar com harmonia e sabedoria. Viver na era da informação exige a habilidade de filtrar, organizar e utilizar a informação com bom senso, para consumo próprio e do meio que vivemos. E isso exige autoconhecimento e maturidade, conquistados com experiência de vida. Ou seja, não basta ter conhecimento. É preciso fazer uso desse com entendimento. Testar, praticar, realizar. Sair do sofá do desejo, para o caminho da ação.

A sabedoria consiste em experimentar com dignidade e coragem nossa história, mudar o que podemos, aceitar o que devemos. Nos empenhar e nos esforçar no prumo individual do aperfeiçoamento, do aprimoramento. Ou seja sermos perfectíveis. E não perfeitos. Isso é ilusão, não é nem humano.

Perfectibilidade é nossa capacidade de nos aperfeiçoarmos, a cada nova empreitada, nova experiência. Evoluirmos a cada travessia. Cada etapa deve ser respeitada e celebrada e não tratada como se fosse pouco ou se fosse nada. Quem não conseguir compreender isso, poderá estar fadado a se sentir culpado ou recorrentemente fracassado. 

Minha vida, minhas regras! 2

Não caia no conto que diz que você pode ser tudo o que quiser e rápido. | image by Shri ram from Pixabay

Não caia no conto que diz que você pode ser tudo o que quiser e rápido. Ou que aquele modelo padrão que tanto admira é o único. Não esqueça que vivemos sob a batuta das regras do capitalismo. Você pode ser o melhor que puder daquilo que é, você pode modificar seu destino, como fez o personagem do filme. Mas não permita que a distração e a distorção causadas pelos excessos ou pelas faltas, obstruam sua percepção e roube seu contato com os fatos, e com quem de fato, você é. 

Procure ser justo consigo mesmo. Escolha as batalhas que vai travar. Evite se padronizar, as pessoas são diferentes. Sim, sei que você sabe, mas as vezes você esquece. Considere a possibilidade das regras propostas não se ajustarem a você. Respeite-se, admire, inspire-se, mas evite idealizar. Ideias são como horizontes, quando os alcançamos, eles se afastam outra vez. Não foram criados para ser alcançados, são apenas referências, direções, que podem nos levar a cair em abismos, se não pusermos guarda-corpos.

Procure ser ponderado nas suas escolhas e consuma mais coerência. Como instruiu Fernando Pessoa “adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito”.

A moderação ainda é um valor pelo qual vale a pensa insistir, e isso não tem nada a ver com insuficiência, tampouco mediocridade. O discernimento deveria ser uma meta. Para tanto, lustre suas lentes para diferenciar quem faz pouco e espera muito (os merecedores sem causa, os que querem chegar lá, sem percorrerem o caminho, sem esforço, sem fracassos). Os diferencie daqueles que fazem muito e valorizam pouco o que fazem. Ambos são feitos de materiais distintos. 

Medida boa, compartilhou certa vez uma paciente na trilha do seu desenvolvimento: “quero um pouco de tudo, de cada vez, daquilo que eu fiz bem e que bem me faz”. E as regras para se conquistar tal feito, são particulares e ao mesmo tempo universais, complementares e não excludentes. Invista no autoconhecimento que nos ajuda a conhecer nossos potenciais e também nossos limites.

Ninguém sobrevive aos extremos, portanto procure a saída no caminho do meio, localizado entre o centro e as extremidades. É um a zona ampla, cabe muitas realizações ali. Esse é o endereço da temperança, do que é flexível, sustentável. Quem sabe não encontraremos lá pesos e medidas mais qualitativos que quantitativos para aferir nossas conquistas, conferir paz a nós mesmos e desfrutar da vida com mais leveza. É um bom plano.

Aprenda as regras, mas principalmente saiba customizá-las.

Maria Marta Ferreira

CRP 08/07401


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