“Meninas usam rosa, Mulheres vestem magenta”

17 de julho de 2012

Um tributo a mulher que você pode ser e a menina que você já foi!

 Tive recentemente uma oportunidade especial: ler dois textos no diário de uma linda menina de 07 anos, que escreveu assim: “Estou gostando de um menino, o nome dele é Marcelo (nome fictício, o original recebeu acentos em forma de coração) ele é um gato, mas também é um retardado”. Em outro trecho:

“Inimigas (escrito enimigas) que eram amigas”. E relatava o nome das desafortunadas.

Depois de muita risada com pensamentos do tipo… “não mudamos tanto assim”! Voltei para o objetivo deste texto com muitos pensamentos extras.

O mundo está passando por rápidas transformações, e o feminino acompanha e determina muitas dessas tendências. Temos uma presidenta no comando do país, presidentas em várias empresas, consumidoras em grande escala, mães, esposas. Para resumir estamos em ascendência em quase tudo. Mas, quais as vantagens de tudo isso? Muitas e também poucas. Tem sido recorrente comentários do tipo “os homens temem as mulheres poderosas”, em outros “os homens amam as mulheres poderosas”. De qual poder estamos falando?

Se entendermos poder como uma forma de impor nossas vontades, comprar nossos desejos tiver subordinados, for a “manda-chuva” pode ser que até faça sentido para alguém ou para alguns. Mas, o poder que a maioria deseja, é o poder sobre seu próprio desejo. Infelizmente muitas de nós ainda estamos longe desse poder: liberdade. Porque se por um lado já queimamos sutiãs, por outro ainda vestimos “apertados espartilhos psíquicos”.

Içami Tiba em seu livro Homem-cobra, Mulher-polvo, fala das múltiplas funções da mulher, nossas muitas habilidades e como podemos ser ágeis, expansivas, eficazes. Mas, há de se ter cautela porque nossas grandes fortalezas também carregam nossas maiores fragilidades.

Costumo brincar com minhas pacientes que não deveríamos confundir “multitalentos com superpoderes”. Mas, infelizmente muitas vezes, nós confundimos e agimos como se fossemos mulheres maravilhas.

Não, não. Não temos capas, coroas, laços, botas nem aviões invisíveis.  O que é uma pena, mas é a realidade e nós precisamos aceitar.

As meninas se fantasiam de heroínas, brincam de Polly com seus infinitos modelitos e sapatos de arrasar e de Barbie e Ken, aquele gato incrível.

Muitas meninas, não ligam para sua barriguinha arredondada, nem passam horas na frente do espelho tentando domar as madeixas, nem repassam o seu dia buscando o que deixaram de fazer e se culpando por isso. Elas são livres, se sentem lindas usando rosa (que está associada à inocência, ao amor, a entrega). Elas podem ser o que quiserem, sem deixar de ser meninas.

Muitas mulheres se fantasiam de heroínas, batalham no mercado de trabalho, conquistam, cuidam de tudo e descuidam dos seus limites, dos seus desejos. Se ressentem por dizerem sim com vontade de dizer não, se sobrecarregam porque não pedem ajuda. Mantêm relacionamentos que há muito deveriam ser desfeitos. Nunca estão magras o suficiente, bem vestidas o suficiente, preparadas o suficiente. Elas não são livres para ser o que quiserem e o melhor que puderem. Deixam de ser mulheres porque não fazem uso do seu poder pessoal, e também não são mais meninas. O que são, onde estão?

Para tornar-se mulher é preciso tornar-se adulta, abandonar o mundo cor-de-rosa em que se pode montar e fantasiar as brincadeiras. Mas preservar a autenticidade das meninas que as habita.

Tornar-se mulher talvez tenha mais a ver com a busca da objetividade, da simplificação, da liberdade que invejamos nos homens. E invejamos no melhor sentido.

Mirian Goldenberg, antropóloga em uma entrevista a Marília Gabriela confessou que inveja a simplicidade dos homens. Concordo. Em grande maioria eles desejam menos, se cobram menos, se culpam menos, são fiéis às suas vontades (e a mulherada morre de raiva e os chamam de egoístas por isso).

Uma paciente, trinta e poucos anos, bonita, bem sucedida, casada, mãe. Tem uma vida padrão, daquelas que a maioria sonha. Mas atravessa um momento de revisão, porque está cansada, vêm suprimindo vários desejos e necessidades, especialmente de tempo para ela mesma. Está insatisfeita, não se reconhece merecedora e ainda luta com suas culpas, suas altas expectativas (tendemos a tecer altas expectativas).

Em vez de se queixar, lamentar, clamar (não espalha, mas nós temos alto potencial para nos tornarmos queixosas). Decidiu se reposicionar e expressou: “Sim, preciso recontratar meu casamento, mas antes tenho que rever meu contrato comigo mesma. Tornar minha vida mais leve, ser mais generosa comigo”.

Tornar-se mulher é isso. Desembarcar na realidade e assumir nossa parte no processo. Entender que nos faz bem doar, cuidar, e que não há problema nisso, desde que façamos isso também por nós mesmas. Compreender que não devemos esperar reconhecimento e doação do outro na mesma medida que nos doamos, especialmente, se for do gênero masculino. E que nos faria bem reciclar velhos relacionamentos, desistir do familiar perfeccionismo feminino e de coisas e pessoas que nos fazem sofrer.

Compreender que somos nós que precisamos aprender aquele egoísmo saudável dos homens que os fazem não abrirem mão do seu futebol, ou da sua aula de guitarra. Entender que podemos ser livres e escolher o eu, algumas vezes, em detrimento de você ou de nós.

Aprender que um pouco de culpa não é tóxica e que nossa individualidade passa por tolerarmos um pouco do desconforto do outro e do nosso. Quando entendermos isso, bancarmos isso. Então poderemos vestir a cor magenta e desfilar por aí lindas e poderosas. Não com o poder do domínio, mas com o poder da liberdade de bancar ser quem realmente somos, o melhor possível que podemos ser, agora!

E por que nosso vestido, nossa calça, blusa ou sapato deve ser  magenta? Talvez você a conheça como carmim, fúcsia ou rosa – choque. Magenta é a mais refinada e sutil dentre todas as cores.  Transmuda desejo em seus equivalentes físicos. Dedicação, gratidão, comprometimento. É uma cor protetora e nutriente, quente e suave. Na sua expressão mais elevada é o amor espiritual ou incondicional (muito feminina, não?). É a última cor do espectro, por isso traz consigo um elevado grau de compreensão e maturidade.

Maturidade e compreensão são indispensáveis a uma mulher, a um adulto. Assumir e respeitar suas limitações, seus anseios. Ter a coragem de desistir de ser perfeita, para ser completa. Eis o “M” da questão. Ou seria o “X” ou o “Y” da questão?

Não importa. Somos livres e usamos a letra que quisermos. E ponto.

Maria Marta Ferreira

Psicóloga CRP08/07401


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