A boa desobediência

3 de setembro de 2019 admin

Ela perdia algum tempo tentando dizer a si mesma que poderia deixar seus óculos azuis de
qualquer jeito no criado mudo. Mas eles insistiam em dizer a ela que tinha que ser daquele jeito,
disposto daquela forma, guardado naquele canto, tão somente daquela maneira. Uma guerra
mental se instalava entre sua mente e seus óculos, ele queria ter a última palavra, e ela, deixava
que tivesse. Enfim, ela adormecia, depois de obedecê-lo.
Quando um pensamento entra sem ser chamado, fica sem ser bem quisto, insiste até te vencer
pelo cansaço. São considerados intrusivos e indesejados. Traços obsessivos não
necessariamente se configuram em transtorno obsessivo compulsivo, um transtorno de
ansiedade que se configura basicamente de pensamentos em excesso, invasivos, negativos,
opressores (obsessões) que se traduzem em comportamentos repetitivos (compulsões) atos, a
fim de aliviar a pressão dos pensamentos. Um transtorno importante que necessita de orientação
psicoterápica e medicamentosa.
Mas, eu pretendo pegar mais leve nessa discussão e conversar com você sobre traços e não
sobre transtornos. Resultados de aprendizados que todos temos, histórias que ouvimos,
palavras que colam na mente da gente, ditados, coisas assim. Pode ser que tenha ouvido que
não tem sorte no amor, ou sua estrela profissional não é brilhante. Pode ser que alguém tenha
dito que você está fora dos padrões de beleza e seu talento é insuficiente. Pode ser que uma
palavra maldita tenha penetrado as defesas da sua mente de forma a sussurrar para você o que
você deve ser, como deve pensar, ou como deve se sentir ou como será o final da história que
está vivendo.
A pior parte é que muitas vezes nós acreditamos. Aceitamos e baseado nessas ideias nos
comportamos. Que emoção estaria no comando dessa situação? Que sentimento alimentaria
nosso pessimismo, nosso temor de que as coisas não darão certo? Quem seria o responsável
por tocar o terror na nossa mente?
Indicaria o medo. Uma emoção complexa, poderosa, sua missão nobre de preservação da vida,
faz muitas vezes com que “abuse do poder” que tem. Guardião da vida, guardião das certezas?
Muitas vezes o medo funciona como uma doença autoimune. Para nos defender nos ataca. Para
nos proteger nos conta mentiras, manipula nossos pensamentos, distorce nossos sentimentos. É
capaz de nos paralisar, de nos impedir. E o que é pior acreditamos. Não duvidamos dele!
Sim, senhor medo. Caímos em suas armadilhas, ficamos presos em suas teias, vislumbramos
nossos desejos e sonhos de longe. Porque nos tornamos muitas vezes incapazes de
desobedece-lo.
Aprendemos desde cedo a importância e o valor da obediência. Respeitar as regras, cumprir os
combinados, acreditar no que está escrito. Não duvidar do que a autoridade nos diz. Mas
esquecemos de ler no rodapé, nas entrelinhas. Quem realmente diz. O que disse? Como foi
dito? Quando?
Gênesis, contado na Bíblia relata que a mulher convenceu o homem a comer do fruto proibido,

desobedecendo a regra de não fazê-lo. Adão teria obedecido a Eva e desobedecido a Deus. Não
preciso recontar a história não é? Quantas catástrofes já foram geradas pela compreensão
distorcida dessa e de tantas outras histórias originais, em que a desobediência mostra apenas
sua face má.
E é sobre distorção que te convido a refletir. Nossa percepção, uma função mental tão
importante é uma lente sensível a perturbações. Engodos são recorrentes. Quem já não foi ao
encontro para cumprimentar um amigo e chegando perto percebeu ser outra pessoa. Quem já
não teve “certeza” de deixar o carro naquele lugar de sempre, só que daquela vez não havia
deixado lá. Quem não acreditou em mentiras contadas por outros, produzidas por mentes que
sofrem de astigmatismo (uma deformação no formato da córnea, em que objetos próximos ou
distantes, são percebidos distorcidos ou borrados, dependendo do grau da deficiência visual. A
correção é feita com adequadas lentes oftálmicas).
Psicologicamente podemos desenvolver uma espécie de ”astigmatismo emocional”, aprender
conceitos equivocados sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre as pessoas e o que nos cerca.
Construir definições enganosas, concepções falsas, acreditar e investir em características e
atributos deletérios para nossa vida e de outros.
É por isso que pode ser útil praticar a boa desobediência, duvidar de algumas verdades,
repensar o status quo, pensar fora da caixinha, deixar de ter fé em certas e absolutistas crenças.
Porque a vida é movimento, e nem sempre na direção certa.
Desenvolver novas concepções, perdoar, mudar, ajustar e corrigir nossas lentes na direção do
bem e por novas rotas. Porque não há verdades nem mentiras absolutas.
Duvidar por vezes é pura sanidade. Da mesma forma que duvidar demais também é insano.
Paradigmas fazem parte dos constructos da vida, mas por vezes precisam se transformar em
paralelepípedos para serem estrada, caminhos.
Assim querido leitor, se chegou até aqui é porque meu convite a boa desobediência fez algum
sentido para você. Existem fatos e existe a interpretação dos fatos. Se dê a oportunidade e
reveja sua tese, seus conceitos, quebre algumas regras, desobedeça em parte ou totalmente
algo que te oprima. Procure e limpe suas lentes internas, para que que te mostre o melhor de
você, mesmo que isso não o exima de perifericamente enxergar também seu pior. Analise com
honestidade de que material você é feito. Só assim entenderemos que igualdade talvez não seja
uma realidade possível sempre, e que o sempre nunca é para sempre. E deixemos algum
espaço para mais equidade e menos igualdade.
Porque é verdade que as coisas nem sempre dão certo. Mas também é verdade que dar errado
por vezes é a melhor forma de dar certo depois. O medo não acredita nisso. Mas o medo nem
sempre tem razão. Muitas vezes ele blefa, mente. Sua necessidade excessiva de controlar tudo,
esconde sua insegurança e sua cruel descrença.
Não permita que o medo seja o líder do seu pensamento, questione-o, desobedeça-o. Dê uma
chance para sua fé. Invista mais horas na sua confiança. O antídoto do medo não é a coragem,
a cura do medo não é a certeza, tampouco o controle. O que o medo não tolera é sua confiança
na vida, em si mesmo, e naqueles que merecem seu crédito. Ele se apavora com os saltos de fé
que somos capazes de dar.
Quando você investe nisso seu medo recua, desincha, e volta ao tamanho que deve ser. Sempre
menor que sua fé! E esqueça aquele ditado do medo de que “nem vale a pena tentar, porque a
oportunidade já foi perdida”. É mentira, ele também pode ser egoísta e invejoso por vezes.
Por isso Reset. E comece outra vez! Ahhh e comece de onde errou. Livre-se dessa crença de
que é preciso fazer tudo certo, desde o começo, depois do meio e até o fim. Isso é uma mentira.
Não perca tempo refazendo o caminho. O perfeccionismo que é cria do medo, insistirá nisso.
Desobedeça-o também. Não precisa começar tudo de novo. A gente aprende a gostar do meio
do caminho em diante!
Maria Marta Ferreira


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